10/03/2016

Hakuoki

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Assim que eu terminei de assistir as duas temporadas de Hakuoki, pensei em fazer uma recomendação. Fazia tempo que não via nada com tanto plot twist, um pouco de romance, personagens interessantes e bem explorados. Mas aí acabei me afundando na coisa toda depois de descobrir que o anime é baseado em um jogo, e que o jogo é base em história real. Então, tenho bastante coisa para comentar nesta recomendação. Vamos lá!

Hakuoki é, originalmente, um otome game – a mistura de visual novel com simulação de romance, feito para o público feminino – criado em 2008, para PlayStation 2, produzido pela japonesa Idea Factory. Com história ambientada no Japão do século 19, o jogo o coloca como protagonista, uma garota chamada Chizuru Yukimura (o primeiro nome pode ser alterado, mas o sobrenome sempre será Yukimura), que vai de Edo até Kyoto em busca de seu pai, um médico que estava fora trabalhando e, de repente, parou de se comunicar com a filha.

Em Kyoto, Chizuru se depara com algumas pessoas estranhas, com um comportamento animalesco e que oferecem risco à sua vida, mas acaba sendo salva por guerreiros que a levam até seu quartel general porque o que ela presenciou não podia ter sido visto por mais ninguém. Vestida como garoto, ela é interrogada até que eles descobrem a verdade sobre seu gênero e sua motivação para estar na cidade. Acontece, então, que eles também estão atrás de seu pai, Kodo Yukimura, que esteve trabalhando em assuntos confidenciais junto com eles. É aí que a vida de Chizuru com o Shinsengumi – a polícia especial que atua em Kyoto em nome do Shogun – começa.

O game de 2008 tinha como objetivo trilhar rotas a partir de escolhas feitas pelo jogador em nome da personagem principal, tendo um fim bom com cada um dos 6 personagens com quem é possível se relacionar, e diversos finais ruins, que normalmente acabam com a personagem principal morrendo.

O diferencial no jogo é que ele possui um fundo histórico bem sólido. A partir do momento em que me viciei no anime, pesquisei e descobri que, fora a parte sobrenatural, muito do resto foi baseado em pessoas e acontecimentos reais. Mesmo que cada rota cubra acontecimentos de forma diferente e mesmo outros acontecimentos, é muito interessante identificar o que foi real e a forma como foi adaptado para o fundo sobrenatural da história. E foi aí que realmente passei a gostar da coisa toda porque, sim, Hakuoki tem pontos negativos, mas prefiro dividir as coisas por mídia, então aí vamos nós a uma análise mais profunda (e que provavelmente vai deixar essa recomendação imensa, mas paciência).

Anime – Hakuoki Shinsengumi Kitan, Hakuoki Hekketsuroku e Hakuoki Reimeiroku

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É agora que vocês entenderão porque resolvi separar tudo. A franquia de jogos está realmente muito grande, fora o jogo base de 2008, existem diversos remakes para outros consoles, que acabam tendo um ou outro diferencial na história ou em extras (chama isso de fan disk), não chegando a ter exatamente continuações, mas também existem jogos com histórias anteriores à original. Por isso, o anime de Hakuoki possui duas temporadas, Hakuoki Shinsengumi Kitan e Hakuoki Hekketsuroku, com 12 e 10 episódios respectivamente, que cobrem a história original, pela visão da rota principal personagem masculino da série, Toshizou Hijikata, e uma temporada com história anterior ao aparecimento da protagonista Chizuru, Hakuoki Reimeiroku, com 12 episódios.

Confuso? Sim, mas eu já explico, vamos com calma. Antes de mais nada, o Shinsengumi e, principalmente, Toshizou Hijikata, são muito conhecidos no Japão e também por amantes da história do país, porque eles foram, basicamente, os últimos samurais reais que existiram por lá. Para situar a coisa toda, a história se passa na época em que o shogunato entrou em declínio e o Imperador voltou a ter poder absoluto por lá. A história japonesa é um pouco confusa para quem não estudou mais a fundo, mas o shogunato era uma espécia de ditadura aprovada pelo governo, que sempre esteve nas mãos dos imperadores, mas com o shogun, o poder real do imperador era muito pequeno. O que acontece é que o Japão foi muito desunido na maior parte da sua história, onde cada clã acabava sendo dono do seu próprio nariz e muito aos poucos a coisa foi se tornando uma só. E quando se tornou, o Imperador decidiu que estava na hora de tirar o poder das mãos do Shogun e, para isso, começou a importar tecnologia e novas formas de fazer guerra.

O Shinsengumi trabalhava diretamente para o Shogun e, depois do fim do shogunato, foi visto por muito tempo como vilão. Mas, como toda verdade tem dois lados, o Shisengumi também é visto como herói e como um grupo de verdadeiros samurais. Toshizou Hijikata foi um homem que realmente viveu e foi com a morte dele que o Shinsengumi, a resistência, deixou de existir, assim como a guerra também se encaminhou para o seu fim. Ele se tornou a alma do Shinsengumi mesmo sem ter sido o seu líder, mas sim o vice-comandante. Ele era, sem dúvidas, o que mantinha o espírito de luta acesso em todos aqueles que passaram pela organização.

Por isso, mesmo com outros 5 personagens “namoráveis”, ele é o principal. Então o anime segue a rota dele, incluindo também alguns acontecimentos e interações de Chizuru com outros membros do Shinsengumi como Hajime Saitou, Sanosuke Harada, Okita Souji e Heisuke Todou. Além deles, também há Chikage Kazama, o demônio que quer capturar nossa protagonista para, bem, ser mãe dos herdeiros dele.

O anime começa exatamente como o jogo e vai avançando a história entre os problemas enfrentados pelo Shinsengumi a partir de 1863, o avanço na guerra e também a busca de Chizuru pelo seu pai. A parte sobrenatural fica a cargo do “rasetsus”, que são uma espécie de vampiro, humanos que agora possuem um desejo incontrolável por sangue, mas que foram criados artificialmente. O Shogun ordenou que o Shinsengumi desse continuidade aos estudos para que super soldados pudessem ser criados, mas a coisa não é tão simples assim.

As duas temporadas são de 2010, e a animação não é das melhores. A produção ficou a cargo do Studio Deen e foram utilizados os mesmos dubladores do jogo. Elas fecham a história completa, desde a chegada de Chizuru até (SPOILER HISTÓRICO) o fim do Shinsengumi. O foco dele, e mesmo do jogo, não é exatamente o romance. A personagem principal é mais uma espécia de expectadora e suporte, e devo dizer que é uma das piores partes do anime. Ela não é forte em nenhum sentido, não faz nada que não seja insistir em ficar ao lado de Hijikata e, sinceramente, não vi motivos para ele não ter mandado ela embora em vários momentos. Diferente do jogo, que veremos depois, o romance também não foi muito natural e chega a ser desnecessário mesmo. Nada de muito impressionante nesse sentido acontece, mas, por outro lado, a história em si é muito interessante, mesmo que muitas vezes existam conversas puramente políticas e fiquei boiando bonito.

Agora, sobre Hakuoki Reimeiroku, a história se passa antes do aparecimento da protagonista, mostrando um pouco da origem do Shinsengumi, também se baseando em fatos reais da década de 1860, como a inclusão do primeiro benfeitor do grupo, Serizawa Kamo, enquanto nem era conhecido como Shinsengumi, mas Miburou (ronins de Mibu). Nesta temporada não há uma personagem feminina, o personagem principal é um garoto que é salvo por Serizawa Kamo e fica sob proteção do Miburou. É através dos olhos dele que vemos o grupo ir se organizando, lutando para sobreviver literalmente, as aparentes injustiças de Serizawa Kamo, um homem que todos temem. O foco é muito mais histórico e a história é bem menos acelerada, uma vez que cobre um intervalo de tempo muito menor na mesma quantidade de episódios que a primeira temporada do anime.

OVAs e filmes de animação

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Hakuoki fez muito sucesso mesmo a nível mundial depois de ter sido um dos primeiros otome games a ser trazido para o ocidente e legendado em inglês. Mas com o anime de 2010, o sucesso alcançou outros públicos. Assim, existem também diversos OVA (original video anime) e também dois filmes longa-metragem em animação que cobrem a mesma história que as duas primeiras temporadas do anime, só que de forma mais concisa por causa do tempo.

Devo dizer que os filmes tem a animação muito bonita e corta um monte de enrolação. Há efeitos interessantes e alguns acontecimentos modificados, mas nada que comprometa o divertimento. O final também é diferente do anime, e mesmo do jogo. Se a preguiça de ver o anime bater forte, os filmes são um bom resumo da coisa toda. Eles foram lançados em 2013 e 2014, e produzidos pelo mesmo estúdio do anime.

De todos os OVA que Hakuoki teve até o momento, eu vi um conjunto de 6 deles que cobrem um acontecimento inédito no anime e, pelo menos no jogo que eu joguei, inédito no jogo também. São seis episódios lançados entre 2011 e 2012 com o título de Hakuoki Sekkaroku, também produzidos pelo Studio Deen. Eles trazem mais um pouco dos personagens de sempre e da vida diária do Shinsengumi. Desta vez, Chizuru, um pouco influenciada por Okita, se voluntaria para espionar um grupo inimigo que tem feito reuniões em uma casa de chá. Para isso, ela precisa se passar por uma gueixa.

Os episódios contam cada um a visão de um dos pretendentes de Chizuru sobre os acontecimentos na casa de chá e outros momentos corriqueiros. Esses episódios são bem interessantes de se assistir após o anime porque não possuem a tensão das guerras, mortes e outros acontecimentos que ocorrem no anime, são mais cômicos e contam um pouquinho mais de como cada um dos personagens acabou se interessando pela Chizuru.

Mangás

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Existem diversas adaptações de Hakuoki para mangá. Uma que eu li se chama apenas Hakuoki e segue a linha da história do anime, apesar de ter lido por aí que existem acontecimentos diferentes. Infelizmente só consegui ler o primeiro capítulo dele, que é tudo que tem traduzido em inglês pela internet.  Essa tem um traço particularmente complicado de lidar. É muito simples e muito rabiscado, não sei. Não fez muito meu estilo. Ela está sendo serializada pela revista shoujo Dengeki Comic SYLPH.

Existe outra adaptação chamada Hakuouki – Junrenka, que aparentemente conta os diferentes finais disponíveis no jogo em seus 2 volumes completos. Dei uma olhada nos capítulos que diziam respeito ao final com Hijikata mas não tive paciência de continuar. Eles resumiram tudo o que podiam para mostrar apenas o final da história mesmo.

Sobre as outras adaptações, vi que existem diversas, incluindo um que cobre o arco Reimeiroku, e que ainda está em lançamento. Imagino que se procurar bem por aí, ache scanlations.

Jogo

Agora chegamos onde realmente interessa, hahaha. Eu joguei Hakuoki: the memories of the Shinsengumi, para 3DS, um dos 4 jogos da franquia que saiu no ocidente, traduzido para o inglês mas mantendo a dublagem original. Como eu já disse antes, existem diversos jogos, cada um com uma ou outra diferença. Então, basicamente, é a mesma coisa, mesma história, mesmas rotas, mesmos personagens. A diferença desse que eu joguei para os outros é que ele possui 3D, algumas artes para decorar fotos, mini-histórias extras, e acho que só isso. Então posso dar minhas impressões sobre ele, vamos lá.

As 6 rotas do jogo iniciam de um mesmo ponto e vão ser formando de acordo com as escolhas que você fizer. Se você fizer uma escolha que atraia a atenção de um dos rapazes, pétalas de flor de cerejeira irão aparecer e seu nível de romance com ele irá aumentar. Se por acaso você escolher algum que se transforme em rasetsu durante a história, ele também terá um contador de corrupção. As escolhas que são feitas durante o jogo não alteram de forma dinâmica a escolha. Isto é, você pega um caminho diferente e pode acabar no final bom, que é único em cada personagem, ou então em algum final ruim – e esses tem vários durante o jogo. Há formas de terminar o jogo sem ninguém. E para um certo personagem em especial, Hijikata-san, você precisa também fazer as escolhas certas quando estiver interagindo com outros personagens. É necessário que o jogo seja perfeito para que você tenha um final feliz com nosso galã.

Tecnicamente falando, o jogo é muito bonito mesmo, os personagens são bem desenhados, as imagens especiais que você vai ganhando conforme o jogo também são muito bonitas. Vi reviews por aí dizendo que o gráfico para PSP está melhor do que para 3DS, mas como não tenho parâmetro não posso confirmar isso. A tradução do jogo está bem feita, mas existe um ou outro erro perdido, como a repetição de uma palavra numa frase (tipo, “on on”). O jogo se torna bem comprido se você for tentar descobrir cada caminho sozinho, e também existe a necessidade de se descobrir alguns finais ruins para pegar todas as imagens de cada personagem. Dá para se divertir um bocado, garanto!

Diferente do anime, o jogo é muito mais focado nas interações de Chizuru com os membros do Shinsengumi e o demônio Kazama. São narrados os eventos críticos para a história, mas não há cenas de luta que não envolvam os pretendentes e que não sejam importantes de alguma forma. Senti um pouco de diferença em relação à personagem: como narradora, me senti muito mais útil do que vendo a Chizuru tão sem reação quanto no anime, mesmo que ela tenha feito até mais coisas do que no jogo.

Sobre a história em si, achei alguns rumos muito surpreendentes mesmo. De início fiquei com medo de que cada rota fosse apenas repetição daquilo que vi no anime, só que com Chizuru se aproximando de um membro diferente do Shinsengumi. Mas me enganei redondamente. Resolvi começar pela rota do Heisuke e, devo dizer, me surpreendi muito. Até certo ponto os acontecimentos foram os mesmos, mas depois de um tempo houve uma mudança tão drástica na história, e um final tão diferente que quase não consegui superar e passar para o próximo.

Meu segundo escolhido foi o Okita. Há uma adoração sem fim por ele e pelo Kazama pela internet e não entendo porque. Tanto uma rota quanto a outra não foram nem um pouco surpreendente. A do Okita só mostrou o quanto ele é chato quando se trata de algum assunto relacionado ao Kondo e tive um pouco de impressão de que ele simplesmente substituiu a obsessão pelo Kondo por um amor súbito pela protagonista. O romance com Kazama foi até mais súbito. Não consegui gostar, me desculpem os fãs.

Para me recuperar, passei para o Harada. E, nossa, que sábia decisão. A linha dele é bem diferente e tem um final dos mais satisfatórios o possível. Realmente lindo de se ver. Depois dele veio o Saito, e foi outra linha interessante. Achei o andamento muito mais fofo e calmo, mas mesmo assim muito bom. E, então, veio Hijikata. Vou ser previsível e dizer que, sim, a rota dele é minha preferida. Isso porquê é a mais longa e mais reveladora, além de já ter criado toda uma expectativa por causa do anime. Não é o melhor final para mim (o posto ficou com o Harada-senpai), mas o melhor desenvolvimento.

Se o jogo vale a pena ser jogado eu diria que sim, por mais que o gameplay não seja aquela coisa incrível e inovadora, é como se você estivesse lendo um livro ilustrado e interativo. Achei um dinheiro bem gasto, de qualquer forma.

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Conclusões

Hakuoki despertou em mim muito mais do que um gosto pelo anime a ponto de comprar o jogo. Ele ativou meu lado louca por história e me fez ter um interesse gigantesco pelo período Edo e pelo Shinsengumi real. Fiz muitas pesquisas para descobrir o que era verídico e o que não era em Hakuoki, e descobri que muito foi baseado na história, inclusive traços característicos, como a beleza e a fama de demônio de Hijikata. As idades deles também condizem, assim como época das mortes e diversas outras coisas. Foi uma parte bem divertida do me envolvimento com Hakuoki!

Mas como me tornei fã de verdade do Shinsengumi real, não pude parar em Hakuoki. No momento estou lendo um mangá da década de 90 chamado Kaze Hikaru, que possui diveeeersas semelhanças com Hakuoki, sendo a mais notável delas o fato de existir uma garota protagonista, filha de um médico. Só que em Kaze Hikaru seu pai morre de fato e ela decide entrar para o Shinsengumi como samurai, e, para isso, precisa se vestir como homem. Ela é o que eu gostaria de ter visto em Chizuru: uma garota que não fica apenas esperando as coisas acontecerem, mas vai atrás e, por mais que seja sensível, acaba aprendendo com os erros.

Há, ainda, inúmeras outras obras baseadas no Shinsengumi e estou com várias listadas aqui, apenas esperando para serem lidas, assistidas ou jogadas. Provavelmente trarei mais coisas sobre ele no futuro, então me aguardem. Acho que isto aqui já ficou grande demais, então obrigada por quem teve paciência de ler tudo e até a próxima!